sexta-feira, janeiro 05, 2018

carta aos amigos

esta poderia ser uma carta de despedida. ou de desistência. mas não é. há alguns meses venho protelando escrever isso e talvez as respostas apareçam aqui. digo talvez pois prefiro as improvisações a planejar o que vou dizer, vocês me conhecem bem. e falo demais às vezes! nessa carta não seria diferente.

ou seria? não acho que tenho tantas coisas a dizer. é mais uma ansiedade por dizê-las. por estar distante de todos e mediado por tanta parafernália tecnológica. talvez o que tenho a dizer seja apenas mais um dos muitos ruídos da web e talvez não tenha tanta importância para muita gente. aos amigos, contudo, sei que vai lhes tocar.

àqueles que conferi a honra de um coração sincero e disponível tenho algumas dúvidas para compartilhar. é 5 de janeiro de 2018, escolhi a data como ciclo que recomeça, reabrindo expectativas ainda turvas e cansadas depois de um ano de dificuldades.

escrevo a vocês porque estive e estou ausente. telefonemas por fazer, cartas nunca enviadas, áudios perdidos e por aí vai. 2017 foi o ano de maior isolamento e de várias decepções consecutivas. enquanto estive confuso, na tentativa de discernir o que estava acontecendo em minha vida, vinham sonhos, lembranças, sorrisos, tristeza. as imagens de saudade que não pude compartilhar logo quando aconteceram.

sinto que a passagem dos anos tem acumulado muitas coisas. histórias que nem sempre tive tempo de contar e ouvir. histórias que se perderam com a repetição da nossa rotina, sem que percebamos que elas estão escapando por nossos dedos. aqueles vestígios pequenos de amor, de quem se conhece e sabe da comoção de ser como se é. com o outro ou sem o outro.

nem tudo pude compartilhar. nem tudo compartilhei. muitas coisas esqueci. será que essa é a tendência geral da nossa memória? ir falhando aos poucos? me preocupa como, de repente, nossas rotinas se tornaram mais importantes do que nossos encontros de outrora. quando ela se tornou mais importante do que estar com um amigo? logo ela, a rotina de que nos esquecemos o tempo inteiro.

muitos ainda não perceberam, e aqueles que já o fizeram falam pouco sobre. estamos matando as crianças que tínhamos dentro de nós. não sei se por frustração ou repetição, mas algo na rotina tem nos maltratado todos os dias, a ponto de não termos tempo para coisas importantes, como relaxar, combinar um encontro, dar um beijo e um abraço, beber uma cerveja com o amigo, compartilhar o teto, ver as nuvens no céu.

alguma sensibilidade teria se perdido no meio do caminho. teria sido o dinheiro? desde pequeno ouvi do meu pai que quem não tem dinheiro não tem amigos. nunca aceitei esse conselho, mas ele flutuou latente em minha cabeça durante anos. se não há mundo hoje sem dinheiro, como os amigos sobreviveriam a isso?

talvez os últimos anos tenham sido mais hardcore. e muitas pessoas próximas tenham sucumbido em suas negociações com o mundo da grana, onde me incluo sem dramas. o capital está instalado em todas as nossas relações. está em todas as direções possíveis quando desejamos não observar a natureza de nossos corpos transitórios. as amizades só sobrevivem enquanto resistência e afeto.

digo isso porque a mais valia humana é perversa. se ela não está no capital, ela está no trabalho. se você sacrifica seu sangue por dinheiro ou orgulho pode cuidar muito mal de suas relações que, nesse contexto em que vivemos, está perdoado. pode, inclusive, descontar sua ira nelas, sua frustração, e reproduzir toda a escala de horror e violência com a qual lidamos cotidianamente nas metrópoles.

noto que me relacionar com as pessoas tem se tornado uma tarefa cada vez mais difícil. a compreensão, o afeto, eles parecem se esvair quando estamos apressados, preocupados, sempre correndo. mas sempre correndo pra quê, minha gente? por que tanto desespero nos consome para cumprir com as expectativas sociais sobre nossos corpos? parece até que precisamos de autorização para existirmos, uma aprovação dos outros sobre a conduta de nossos corpos. afinal, quando nossos corpos foram nossos, de fato? alguém teria uma sugestão?

o relógio é uma mera ficção. os números, símbolos, também são. se vamos usá-los, que usemos a nosso favor, não como medida da escravidão de nossos devires, daquilo que sentimos e pensamos. antes de julgar o fracasso do outro, pergunte se seu sucesso não é o fracasso do corpo, das relações e, mais importante, do amor.

minha provocação existe, sobretudo, pelo que deixamos para trás. pelo que abandonamos no caminho. isso me lembra aquela música do clube da esquina, “tudo o que você podia ser”. ouçam o som...

“com sol e chuva você sonhava
que ia ser melhor depois
você queria ser o grande herói das estradas
tudo que você queria ser

sei um segredo
você tem medo
só pensa agora em voltar
não fala mais na bota e no anel de Zapata
tudo que você devia ser
sem medo

não se lembra mais de mim
você não quis deixar que eu falasse de tudo
tudo que você podia ser
na estrada

ah! Sol e chuva
na sua estrada
mas não importa, não faz mal
você ainda pensa e é melhor do que nada
tudo que você consegue ser
ou nada

não importa, não faz mal
você ainda pensa e é melhor do que nada
tudo que você consegue ser
ou nada!”

sem medo! ou nada! que encruzilhada... definitivamente estamos enclausurados. e aqui não há medida de julgamentos, apenas um aperto no peito pelo que todos estamos passando em tempos desesperançosos. afinal, haveria solidariedade na solidão? vagamos cheios de problemas porque não conseguimos sequer um encorajamento sincero para prosseguir. alguém que queira ouvir nossas histórias, que seja leal, que nos dê a mão. um amor jamais descartável. alguém que não sinta tédio ao nos ver surgir em sua porta.

as amizades são algo tão valioso na vida que carrego comigo de maneira mais incisiva quando entendi que, nelas, encontraria a resistência ao fascismo introjetado em todas as instituições por séculos. é na aliança com os refugiados que conseguimos pensar em novos pontos de partida para nossas próprias vidas. mas por que, me digam, por que nos fazem acreditar cada vez mais que isso é desimportante?

por que querem me fazer desacreditar no meu amor pelo outro? qual o sentido de estar aqui se não for pelo olho no olho, pela coragem de existir, compartilhada na confiança de estar junto pro que der e vier? talvez o capital nos dê uma rasteira profunda nesse sentido. o que der e vier... como prever o futuro sem dinheiro? existe alguma previsão de vida no mundo sem as relações econômicas e políticas sólidas que foram decididas antes que nós existíssemos?

em que medida continuar replicando esses modelos vai nos abrir caminhos para um futuro? há muitas famílias no poder. e somos marionetes de um sistema assassino sobre o qual não tomamos nenhuma atitude. me sinto sabotado, vejo várias gerações sabotadas pelo consumo e pela violência. não pensamos na natureza, não pensamos em ninguém, sequer em nós mesmos. que ficção maluca é essa? a disciplina só nos serve para reiterar o estado de impossibilidade.

eu não quero ser impedido de viver, não quero que meus amigos também o sejam. estou por eles como estou na guerra. e estou gratuitamente, ninguém que me peça ou me obrigue a fazer o que não quero fazer. se bato na sua porta ou te chamo é simplesmente porque te amo, quero sua companhia, tenho prazer em te ouvir. mas e se, tudo isso, eu deixei de fazer?

tenho culpado o tempo. mas nesse texto quero assumir que a culpa é minha. me perdoem. minha ausência é injustificável pela disputa de poder e sobrevivência nas estruturas. como e quando faço isso parar? será que tocar o foda-se no medo do fracasso e das incertezas pode me apontar mais caminhos conjuntos, afetuosos, companheiros...?

quando penso em tudo isso, penso em vocês. penso se topariam uma loucura, se topariam abraçar o mundo com as pernas e gozar o pouco de tempo que ainda temos nesse planeta maluco. sei do meu hedonismo pela vida e não quero impor essa disposição pessoal a ninguém. quero apenas entender por que as imagens que projeto são sempre limitadoras quando o assunto é prazer, natureza, simplicidade...

se penso nessas coisas tenho de me sentir culpado, responsável por alguma coisa que ainda não entendi o porquê. alguém aí teria alguma justificativa plausível para ter nascido nesse planeta? se tiver, tô bem interessado em ouvir. porque ando perguntando quais seriam as minhas justificativas. justificativas para quê, minha gente? somos um milagre ambulante do universo e teimamos em não reparar isso.

a economia nos pegou nos pontos fracos. precisamos comer, beber, dormir, ter saúde, nos divertir, transar, e tantas outras coisas. mas pra fazer muitas delas nos fizeram acreditar que precisamos, antes, de dinheiro. e sabe o que eles excluíram de nossa cognição para que pensemos apenas nessa saída? as relações. esqueceram que pra comer, beber, dormir, ter saúde precisamos da natureza. e que para nos divertirmos, transarmos e entendermos essa passagem precisamos do outro. é muito simples! mas parece que essa gritaria toda é inaudível. soa abafada como o barulho da pluma.

aquela animação brasileira, o menino e o mundo, quem tiver a oportunidade de ver, veja. ela resume a decepção de termos trocado a natureza pelas cidades. suscita um pouco do debate que pretendo nessa carta-ensaio, talvez um dos meus últimos gritos conscientes antes de sucumbir à mais valia das cidades. pois estou cansado de repetir a mesma coisa e enquanto a resistência afetiva não se consolida, ficamos à mercê da grana. isso acontece com muitas pessoas desde cedo, até crianças. dei muita sorte de meu processo ter sido mais tardio e minha infância ter sido respeitada. isso não o torna, todavia, justificável. ninguém deveria ser submetido a esse processo. a norma, o normal, está à serviço do dinheiro. e quem pretende se encaixar vai conseguir, não tenha dúvidas. a economia de afetos sempre dá conta de arrastar mais um.

é incrível perceber como pessoas que se dizem artistas replicam essa mesma economia de afetos, com suas práticas experimentais e seus dizeres libertadores, ainda reverenciam as hierarquias e as mesma formas de dominação e disciplina. é uma pena, pois um artista existe na economia apenas como mais um corpo enclausurado a serviço do poder, não como um fundamento da criação que propõe e das reflexões sobre o mundo que traz consigo.

esta carta improvisada, por tudo isso e mais um pouco, fala de decepção. e também fala de ausência. o tom de despedida anunciada no início reflete minha preocupação com os tempos vindouros. me preocupo com o que sofrerão o corpo e a mente nesse processo cíclico de não encontrar alternativas plausíveis para uma existência saudável no circuito dos afetos. me preocupa que continuemos a nos afastar. que os amigos estejam sumindo.

é muito estranho que já não tenha notícias de alguns, que não saiba de suas vidas e do que está prestes a acontecer. da mesma forma que é injustificável eu estar inserido nesse mesmo processo, que me parece forçado, de desinteresse. o que no cotidiano se tornou mais importante do que nossas relações? sobreviver?

bem, se for isso nos preparemos, em breve seremos mais uma instituição: a família. a célula de propriedade a que ela nos conduz repercute em todos os projetos que teremos doravante. também não vejo alternativas. a família é ainda um dos poucos terrenos de resistência afetiva que sobrevive ao/com o capital.

o que me assusta nesse processo não é termos família ou escolhermos dividir nossas vidas com um número restrito de pessoas. na condição do mundo em que vivemos, o caminho parece ser naturalmente esse – somos conduzidos. o que me assusta é a família preencher todo o vazio que carregamos no trajeto e nessa experiência bizarra das cidades, quando poderíamos estar pensando noutras formas de nos relacionar. e isso começa em conjunto, com as várias pessoas que amamos ou nos disponibilizamos a amar.

não estou aqui evocando modelos utópicos. estou falando de forma simples: precisamos estar perto de quem amamos. do que adianta passar a maior parte do dia obrigado a conviver com pessoas com quem não estabelecemos o mínimo diálogo? com pessoas com quem não podemos contar ou imaginar um mundo comum?

pra mim a resistência à vida dolorosa e difícil a que fomos submetidos no mundo da exploração dos mais ricos sobre os mais pobres só existe se tivermos afetos, sejam eles familiares ou amigos. se não existe essa rede de apoio, talvez apenas a natureza seja a saída.

as cidades estão falidas em seus modelos precários de sustentabilidade. em breve teremos exaurido o planeta em que vivemos com o estilo de vida que tomamos pra nós. e se isso acontecer veremos a ficção ruir nas nossas caras. espero que tomemos as rédeas desse absurdo antes.

encerro um pouco dessa reflexão improvisada, cheia de cortes e pensamentos avulsos, trazendo uma reflexão sobre amizade com o cineasta iraniano já falecido, Abbas Kiarostami. no filme E o vento nos levará, a relação de amizade entre um garoto e um engenheiro é posta à prova. a criança recebe o engenheiro em sua cidade, apresenta-lhe tudo e, todas as manhãs, leva-lhe pão à porta.

para conseguir as informações que precisa, o engenheiro tem várias conversas com o garoto, sempre aberto a ouvir-lhe as palavras sábias. mas um belo dia a criança deixa escapar coisas da vida de sua família para os capangas do engenheiro, que, por isso, abandonam o projeto planejado por ele, acusando-o de falta de transparência.

numa manhã em que novamente leva os pães para o engenheiro, o garoto é destratado por ele devido ao que contaram seus capangas. o homem sequer quis ouvir a versão da criança e a mandou embora de forma rude. tempos depois arrependido, ele tenta voltar para conversar com o garoto na escola. mas a criança não consegue sequer estender-lhe a mão. ficou profundamente decepcionada. esse é um dos diálogos mais belos do filme e deixo para que vejam quando tiverem curiosidade.

na conversa, o engenheiro fala sobre as máquinas. que, como máquinas, há momentos que perdemos o espírito. como uma criança pode entender isso? bem, ela não entende porque ela é dotada de espírito. existe amor gratuito e é disso que falo nesta carta.

entretanto há um paradoxo, pois quando magoada, a criança é a orgulhosa da história. E ficamos entre os dois desentendidos, que perderam a confiança um no outro. um se desculpa depois de desmerecer uma das relações mais gratuitas que teve na história. o outro, decepcionado, leva tempo para perdoar. como resgatar isso?

não briguemos por bobagens. e as pessoas em que realmente confiamos, que possamos dialogar. nesse processo facilmente descobriremos com quem podemos contar afetivamente ou não. precisamos saber se existe amor. e se é gratuito.

aos amigos, que o desejo por dias mais corajosos nos afastem dos equívocos da selvageria do capital. a todos nós, que saibamos diferenciar as coisas e aproveitar uns aos outros enquanto ainda estamos aqui. amigos que chegaram até aqui e sabem do carinho, das noites viradas, dos banhos de mar e cachoeira, dos momentos de aflição, das gargalhadas, dos amores, da contemplação, do silêncio e de todo esse amor que ainda carrego por vocês, agradeço muito a companhia. sempre que precisarem vocês sabem como me encontrar.

estou cansado e preciso dormir. os anos têm passado mas não quero desistir dos meus sonhos pueris. mesmo que sejam poeira cósmica, ver-nos em grupo me parece a imagem mais fidedigna deste mundo. um dia a imaginei em minha infância. alguns queridos sabem dessa história, aos que não se lembram...mandem uma mensagem que conto e desfaço essa saudade com uma surpresa.

onde quer que estejam, amo vocês.